sábado, 14 de maio de 2016

Tentando entender o tempo nu universo eterno

Onde o tempo mede
quanto tempo ele tem?

quinta-feira, 30 de maio de 2013

IEMANJÁ SÉCULO XXI NOS SALVE

Morrer

Algo havia morrido dentro dela
Novamente
Não era a primeira vez
Que morria
Que tentava,
Em vão
Desesperar-se
À procura
De algo,
Que não sabia
O que era
Mas que
Fora embora,
Para sempre.


Tempo








sábado, 17 de julho de 2010

O BEM AMADO de Guel Arraes

Foi um processo difícil para alguém que, como filho de Miguel Arraes, governador de Pernambuco cassado, preso e exilado depois do golpe de 1964, formou-se dentro dos cânones da velha esquerda brasileira. Na entrevista que se segue, Guel fala do filme, que estreia no próximo dia 23, e da construção do que chama de “cinema popular brasileiro”, ideia inspirada na MPB. “A música popular brasileira tem um leque enorme de opções. É uma arte de grande comunicação, que não impede a experimentação. Mas no cinema é diferente. A tradição do cinema autoral criou uma vergonha de ter público.”

Por que um filme de sátira política?
Tem a minha motivação pessoal, de ser um diretor de comédia que viveu os bastidores da política. Mas tem também a constatação de que, apesar de oferecer uma matéria-prima riquíssima, com tantos personagens emblemáticos, caudilhos, ditadores civis e militares, líderes carismáticos, a política brasileira é um tema muito pouco explorado. Eu queria fazer uma comédia do poder, cheguei a planejar encenar Ubu-Rei (clássico do francês Alfred Jarry, de 1894). Seria um ótimo retrato da ditadura brasileira.

E por que esse projeto de tão longa maturação está se concretizando agora?
Acho que a política ganhou interesse nos últimos anos Quando as pessoas dizem “não gosto de política, político é tudo safado”, isso não quer dizer que elas não se interessem pelo tema. Houve uma educação política, as pessoas se tornaram vigilantes, denunciam os maus políticos. Uma sátira como essa, para mim, atende a uma demanda social. Vejo como uma espécie de serviço fazer rir com política. Não por causa da conjuntura imediata, eleitoral, mas pelo interesse pela política que acredito que a democracia tenha devolvido às pessoas. Esta é, aliás, a minha grande ansiedade em relação ao filme. Ele irá bem ou não dependendo do acerto dessa minha tese.

O Bem Amado original é de 1962, um período democrático, em que você era criança e seu pai, governador de Pernambuco. O filme se passa nesse mesmo ano, inclusive com referências muito datadas, como a renúncia recente de Jânio Quadros e as incertezas do governo João Goulart. Por que essa volta aos anos 1960, e não uma trama atemporal como foram a novela e a série da TV Globo?
Esse período de 1962 está na base da minha formação política, da minha atitude como cidadão, e também na referência familiar. A ideologia marcada pela oposição entre esquerda e direita, progresso nacional, luta pelo povo, são bandeiras da minha vida inteira. Essa coincidência pesou para que eu fizesse um filme datado. Mas ele é situado numa época pouco conhecida da maioria das pessoas hoje. Quem não conhece vai pensar “isso deve ser verdade, porque tem essas referências históricas aqui. E parece um pouco com hoje em dia”. Até porque, matreiramente, a gente atualizou alguns mecanismos políticos e alguns personagens, para torná-los mais reconhecíveis, e permitir a percepção de que “começou aí”.

Quais as dificuldades que você encontrou na atualização da trama?
A questão “séria” do filme é: “Existe ainda ideologia, ainda existe esquerda e direita, ainda existe a fronteira da justiça social ou não?” Do ponto de vista da posição política, isso foi o que mais me preocupou. Como eu ia fazer? Eu sabia que tinha que ter um personagem de esquerda diferente do que tinha no Dias, porque senão ia ficar chutando cachorro morto, fazendo uma crítica velha à maneira tradicional de se fazer política no Brasil. O Dias não ia fazer essa crítica em 1962, quando ainda existia a utopia da esquerda. Muito menos em plena ditadura militar. Mas agora não, eu queria, e sabia que precisava ter um personagem negativo.
Tive muita saudade da minha tia Violeta (irmã de Miguel Arraes, que ficou conhecida como a “Rosa de Paris” pelo apoio que deu aos exilados brasileiros durante a ditadura militar). Era a pessoa para quem eu gostaria de ter mostrado o filme. Ela tem abertura suficiente para aceitar e também saberia me dar um limite. Ela ainda estava viva quando eu estava fazendo o roteiro (morreu em 2008), e eu pensava muito nela. Sentia o conflito de ter uma postura como artista, de ter uma posição crítica em relação à esquerda sem renegar tudo o que vivi.

Foi por isso que você mudou o final de Dias Gomes?
Sim. Quando ele termina a peça no cemitério com o cara da oposição fazendo o elogio fúnebre do Odorico Paraguaçu, o personagem não é de esquerda. É um sujeito vagamente anarquista, que não é candidato a nada. Então não fica tão chocante quanto a esquerda fazendo o panegírico da direita. Quando vi o filme pronto, fiquei muito nervoso. Vi que estava dizendo algo em que não acredito, que político não presta, que esquerda e direita são a mesma coisa, que não existe mais ideologia nenhuma. Não era isso que eu queria, não gostei do resultado. Mudei o fim, e mudei com o filme pronto, coisa que nunca tinha feito antes. Felizmente, a solução para essa angústia era um personagem. Neco Pedreira (Caio Blat), filho do esquerdista Vladimir, é uma espécie de terceira via. É jovem, idealista, crítico às práticas da esquerda. Aí inventei aquele salto para o movimento das Diretas Já, aproveitei o personagem jornalista para ser o locutor e disse o que queria dizer: a solução está na democracia.

Por que é tão difícil criticar a esquerda?
Não sei. Quando comecei a mergulhar nesse projeto da sátira política, saí em busca de referências. Achava que encontraria um romance, uma peça de teatro, alguma obra que satirizasse a esquerda. Não encontrei. Os intelectuais, que normalmente são de esquerda, deveriam ser críticos. Mas não são. Fazem caricatura, fazem crítica de colega. Registram o que consideram exagerado, fora do tom, antiquado. Eu nunca vi comédia sobre o que está sendo abordado em O Bem Amado, a lógica de qie os fins justificam os meios, de que alguém pode ser dono da verdade, de que vale tudo porque você vai chegar ao poder para fazer o bem à maioria. Essa ideia dramatizada em comédia eu não achei. Enquanto que o personagem do conservador existe em vários lugares. O Odorico é uma síntese genial do político conservador, mas ele aparece em muitas outras obras.

Seus filmes têm sido classificados como muito comerciais. Dizem que na TV sua produção é ousado, criativo, e no cinema você faz cinemão.
Tirando Romance, um fime que eu não pensei pra TV, os outros foram intencionalmente comerciais. Talvez eu esteja encerrando esse ciclo. O Bem Amado é quase um filme tardio. Mas o que eu quis foi trazer pro cinema o know how que esse grupo com o qual eu trabalho (Jorge Furtado, João e Adriana Falcão, Cláudio Paiva, entre outros) adquiriu na televisão, que é tentar fazer produção comerciais, de grande público, com interesse artístico. O cinema alternativo tem que existir. Mas existem equívocos. Vou dar um exemplo simples. O grande dogma do cineasta é que ele tem que escrever seu roteiro e dirigir. Acontece que um bom diretor, um bom realizador, não é necessariamente escritores. E a obrigação de escrever seu próprio roteiro resulta em algumas coisas horríveis. É terrível se obrigar a fazer uma obra original. Qual o problema de fazer adaptação? Por que eu vou escrever outro Bem Amado, se já existe um, e é bom? O cinema de autor cria um trilho difícil. Você tem 60 filmes alternativos, 20 que procuram o público e cinco que encontram. Alguma coisa está errada.

O "cinema popular brasileiro" que você defende seria a saída? O que é isso exatamente?
A gente tem uma música popular brasileira muito viva, com um leque enorme de opções, desde os cults, os sertanejos, Caetano que transita pra cá e pra lá. É uma arte popular de grande comunicação, que não impede a experimentação, que é um modelo. Na música, “popular” não é pejorativo. O Pedro Cardoso (ator) andou falando na criação de um teatro popular brasileiro. E eu pensava: teatro é difícil, mas cinema popular dá para fazer. E dá pela tradição de televisão que a gente tem. Desde 1964, a TV brasileira produz ininterruptamente, ali começaram a surgir obras populares e interessantes. Eu acho inclusive que na retomada da produção cinematográfica no Brasil, a novidade está mais no cinema comercial, popular do que no cinema experimental. O cinema alternativo não chegou a ser tão interessante quanto o Cinema Novo. E o que a gente tinha como filme popular era filme infantil, Xuxa. Eventualmente surgia um Dona Flor. Hoje você tem um leque, que vai de Cidade de Deus, um filme poderoso, a Se eu fosse Você. O Brasil produz 70 e poucos filmes por ano, mas cinco filmes seguram 90% da bilheteria brasileira. Eu acho que tem problemas, claro, de financiamento, de distribuição. Mas também tem muito menos diretor e produtor procurando o público do que deveria existir. A tradição do cinema autoral criou uma vergonha de ter público.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pedro Kilkerry

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz,
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! Enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz?

*********************

Ad Veneris Lacrimas

Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
Aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...

Canta a alâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua.
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.

Ìon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...

Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma – por Zeus! – na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.


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Noturnos

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
........................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! Minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.


*******

Cetáceo

Fuma. E cobre o zênite. E, chagosos do flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zênite e o vento arqueja e o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d’água ou do sol vermelho.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Cubo das Sensações

As coisas são como cúbicas, a nossa sensação delas plano-quadrada. Cada sensação pode dizer-se cúbica porque envolve um triplo: a coisa em si, a nossa percepção individual e a nossa percepção extra-individual, metafisicamente falando, este último gênero de percepção é comum a tudo que existe.

Fernando Pessoa

Pensamento do dia

"E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda" [Caio Fernando Abreu]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

cinema brasileiro

os brasileiros, sejam cineastas, verdureiros ou maquinistas de trem entre Carajás e Brasília sempre, sempre sofreram do que podemos chamar, brasilidade...nôo, nâo existe uma outra cultura mundial onde o amor, a alegria e força de sobrevivência (digo a malandragem do entender o sofrimento)se mostra tao devastadora...parabéns pela sorte de poder trabalhar com imagens que partem da mitologia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Clarice

A descoberta do mundo - Espanha

Quase não era canto, no sentido em que este é aproveitamento musical da voz. Quase não era voz, no sentido em que esta tende a dizer palavras. O canto flamenco é antes da voz ainda, é fôlego humano. Uma palavra ou outra às vezes escapava, revelando de que era feita aquela mudez cantada: de história de viver, amar e morrer. Essas três palavras não ditas eram interrompidas por lamentos e modulações. Modulações de fôlego, primeiro estágio de voz que capta o sofrimento no seu primeiro estágio de gemido. E de grito. E mais outro grito, este de alegria por se ter gritado. Em torno, a assistência aconchega-se escura e suja. Depois de uma das modulações que de tão prolongada morre em suspiro, o grupo esgotado como o cantor murmura um Olé em amém, última brasa.

Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o Olé que o irrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro. O cantor, de dentes quase cerrados, dá à voz a cegueira da raça, mas os outros exigem mais e mais, até conseguirem o instante espasmo: Espanha.

Ouvi também o canto ausente. É feito de um silêncio cortado de gritos da assistência. Dentro da clareira de silêncio, em semente ardente, um homem pequeno, seco, escuro, de mãos nas ilhargas, cabeça atirada para trás, marca com o duro taco dos sapatos o ritmo incessante do canto ausente. Nenhuma música. E nem é uma dança. O sapateado é antes da dança organizada – é o corpo manifestando-se, pés transmitindo até a ira em linguagem que Espanha entende. A assistência se concentra em fúria no próprio silêncio. De quando em quando a provocação rouca de uma cigana, toda de carvão e trapos vermelhos, em que a fome se tornou dor e ameaça. Não era espetáculo, não se assistia: quem ouvia era tão essencial como quem batia os pés em silêncio. Até a exaustão, comunicam-se durante horas através dessa linguagem que, se algum dia teve palavras, estas foram se perdendo pelos séculos – até que a tradição oral passou a ser transmitida de pai para filho apenas como ímpeto de sangue.

E vi o par da dança flamenca. Não sei de outra em que a rivalidade entre homem e mulher se pusesse tão a nu. Tão declarada é a guerra que não importam os ardis: por momentos a mulher se torna quase masculina, e o homem a olha admirado. Se o mouro em terra espanhola é o mouro, a moura perdeu diante da aspereza basca a moleza fácil; a moura espanhola é um galo até que o amor a transforme em Maja.

A conquista difícil nessa dança. Enquanto o dançarino fala com os pés teimosos, a dançarina percorrerá a aura do próprio corpo com as mãos em ventarola: assim ela se imanta, assim ela se prepara para tornar-se tocável e intocável. Mas, quando menos se espera, sua botina de mulher avançara e marcará de súbito três pancadas. O dançarino se arrepia diante dessa crua palavra, recua, imobiliza-se. Há um silêncio de dança. Aos poucos o homem ergue de novo os braços e, precavido – com temor e não pudor -, tenta com as mãos espalmadas sombrear a cabeça orgulhosa da companheira. Rodeia-a várias vezes e por momentos já se expões quase de costas para ela, arriscando-se quem sabe a que punhalada. E se não foi apunhalado é que a dançarina de súbito recolheu-lhe a coragem: este então é o seu homem. Ela bate os pés, de cabeça erguida, em primeiro grito de amor: finalmente encontrou seu companheiro e inimigo. Os dois recuam eriçados. Reconheceram-se. Eles se amam.

A dança propriamente dita se inicia. O homem é moreno, miúdo; obstinado. Ela é severa e perigosa. Seus cabelos foram esticados, essa vaidade da dureza. É tão essencial essa dança que mal se compreende que a vida continue depois dela: este homem e esta mulher morrerão. Outras danças são a nostalgia dessa coragem. Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. Ou a alegria é dispensada. É o triunfo mortal de viver o que importa. Os dois não riem, não se perdoam. Compreendem-se? Nunca pensaram em se compreender, cada um trouxe a si mesmo como único estandarte. E quem foi vencido – nessa dança os dois são vencidos – não se adoçará na submissão, terá aqueles olhos espanhóis, secos de amor e raiva. O esmagado – os dois serão esmagados – servirá vinho ao outro como um escravo. Embora nesse vinho, quando vier a paixão do ciúme, possa estar o veneno da morte. O que sobreviver se sentirá vingado. Mas para sempre sozinho. Porque só esta mulher era sua inimiga, só este homem era seu inimigo, e eles se tinham escolhido para a dança.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A pesquisa audiovisual: arte e conteúdo

O FILME TEMPOS DE PAZ

No dia 18 de abril de 1945 desembarca no porto do Rio, o ator polonês Clausewistz. É ali, no setor de imigração que se desenvolve o diálogo entre Segismundo, agente da polícia política do governo de Getúlio Vargas e o Clausewistz, que diz ser agricultor.
No momento que a guerra chegava ao fim – que os presos dos principais campos de concentração eram libertados e Vargas concedia anistia aos nossos presos políticos (entre eles, Luis Carlos Prestes) - um ex-ator se defronta com um ex-torturador.

A PESQUISA DE TEMPOS DE PAZ
A pesquisa procurou dar referências para as equipes criarem os personagens com verossimilhança, ou seja, situações com uma probabilidade de verdade. A memória foi uma das principais fontes de informação. Entre as ferramentas mais importantes estão as consultas aos relatos biográficos e as conversas com pesquisadores, jornalistas e estudiosos do assunto: Alberto Dines, Fábio Koifman, Helena Lewin, Matias Marcier, Georgina Koifman, Maria Luiza Tucci Carneiro, Ruth Freihof, entre outros.

Em vários museus de várias partes do mundo, existem arquivos de história oral, os refugiados da segunda guerra deixaram importantes depoimentos sobre suas experiências.

Uma ficção com pitadinhas de realidade

Matias Marcier, nos presenteou com o livro biográfico de seu pai, Emeric, onde achamos nosso primeiro “Clausewistz”:
O pequeno judeu da Galícia, possuidor de um passaporte da República Dominicana, me perguntava de que país eu era e eu, procurando criar um mistério à volta da minha pessoa, dizia que era de muito "longe", tendo que ouvir a resposta exata que naquele momento, e naquele ponto do Atlântico, todos éramos absolutamente distantes de todos os lugares do mundo... A diversidade dos destinos de tanta gente que o navio carregava somente podia ter fins variados na hora da chegada. Seríamos todos triturados e despejados, esse processo já se fazia sentir durante a travessia naquele caldeirão tropical. Aqueles "emigrantes" que, mesmo depois, ficariam grudados, seriam como conglomerados, resíduos açucarados no fundo do tacho sobre o fogo intenso onde se cozinha a goiabada. Ainda tentava fazer alguns desenhos para apressar a hora da chegada—fortemente marcado pela herança surrealista, esse invólucro teria que estourar ao contato com a "vida".A angústia que carregava no peito, sem querer um minuto me sentir salvo de algum perigo, só podia ter como causa o "medo" —não mais da soldadesca, brutalidade fascista, bombardeios, ou de qualquer terror visível —,mas apenas o "Medo" simplesmente de existir, que deve ser nossa primeira reação tivemos quando viemos ao mundo.Amor e medo se excluem reciprocamente, daí a razão da desesperada procura do amor para viver sem medo.Lendo as estórias infantis, somente se podia imaginar uma longa viagem pelos mares desconhecidos com o súbito aparecimento da terra, ou qualquer indício de proximidade da mesma. Multiplicação de gaivotas pousadas nos mastros e cabos da embarcação. Não dispondo de binóculo, visto a olho nu, lentamente se desenhava no horizonte algo que podia ser a "terra".Céu carregado de nuvens escuras e assim mesmo luminosas, contra o qual se recortavam coqueiros envergados sob o forte vento. Passavam-se as horas; cada vez mais perto do continente, as cores azuis que dominavam nossa viagem se mudaram em profundo verde-acinzentado, que dificultava a percepção nítida da costa bordada de milhares de coqueiros.Como se as máquinas tivessem parado de trabalhar no bojo do navio, cansadas depois de tantos dias de esforço ininterrupto, entramos lentamente no porto de Recife. Sob a chuva miúda, centenas de guarda-chuvas, abrigando a multidão, que esperava a nave atracar ao cais. Cabeças cobertas de chapéus de panamá, de terno de linho, ou brim branco, essa gente saudava o Conte Grande com redobrada curiosidade, pois ele vinha da Europa conflagrada.(...)Lúcio me chamou a atenção para o nome do minúsculo rebocador, Gigante, que estava puxando o nosso barco para dentro do porto. O espetáculo grandioso da baía de Guanabara, com as praias da Glória, Flamengo, Botafogo, na época ainda muito fiéis às gravuras do século XIX, com prédios baixos, que não interferiam na paisagem, como hoje é o caso da muralha de concreto. Sem computadores, sem complicados fichários, os passageiros foram desembarcados após rápida conferência dos papéis e controle de saúde. Minha exígua bagagem, uma mala com roupas e uma pasta com trabalhos, não criou problemas maiores. (Deportado para a vida, autobiografia de Emeric Marcier).

Na preparação do filme, pesquisamos referências para direção – conteúdo para colaborar na composição das cenas com os atores – desde a leitura de livros sobre o assunto a músicas polonesas, jornais, programas de rádio, filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, todas as informações eram repassadas para os assistentes de direção e traziam informações para a atmosfera do filme. Para os departamentos de cenografia e figurino, procuramos imagens sobre os costumes dos anos 40, fotos de imigrantes e refugiados, do ambiente portuário, de documentos como passaportes e ofícios, de uniformes dos oficiais e da guarda portuária, de mobiliários, etc.

Para a seqüência de abertura do filme, imagens de documentários, de cinejornais de vários acervos de imagens nacionais e internacionais. Achar registros fílmicos, cinematográficos para o passado de Clausewistz, o que ele viu antes de embarcar, a busca por imagens da vida de civil, não pela experiência militar nem pela visão épica da guerra. A Diana e o Daniel souberam achar a atmosfera dessa montagem, a perspectiva humana.

Vários depoimentos vieram através do jornalista e escritor Alberto Dines, incansável colaborador, nos permitiu acesso a uma série de arquivos pessoais e documentos de pesquisa, realizados pela equipe da Casa de Stefan Zweig. Além de participar de nossa homenagem aos refugiados e sugerir muito dos biografados, dele veio a premissa básica, saber o que é um refugiado – além da fundamental compreensão da diferença entre as definições de imigrantes, exilados e refugiados.

“O refugiado não pode voltar para a sua casa. Se o refugiado voltar corre o risco de ser preso, morto ou torturado.”Luis Varese é peruano. Jornalista e antropólogo, consultor do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).[1]

Nosso consultor, Fábio Koifman nos enviou uma entrevista de Ziembiński no Programa “Fantástico”, narrando seu encontro com o Embaixador Souza Dantas.

Durante esse tempo todo que estava na França, todo mundo e eu queria ir para algum lugar. O problema era sair da Europa, era sair de lá. Porque todos nós, não éramos carne para os canhões, automaticamente, éramos indesejáveis, então, éramos elementos de maior ataque, de maior desconfiança, todos éramos espiões. De qualquer lado, não importa. Lado alemão, lado francês. Qualquer um. Todo mundo era indesejável. Então, todo mundo era, a qualquer momento, ameaçado de alguma coisa. Então, queria ir embora. Queria entrar em qualquer lugar onde se pudesse colocar para poder ir embora. Tentava-se visto aqui, tentava-se visto ali, para a China, para a Nova Zelândia, sei lá, para qualquer lugar, Inglaterra, tudo, mas não havia possibilidade, porque ninguém dava. Então, ficavam aquelas filas intermináveis de duzentos, trezentos, quatrocentos metros na rua. Tinha gente deitada no chão, na frente das embaixadas, pedindo, esperando. 'Disseram que a Embaixada da Holanda vai abrir'. Aquele negócio. Submetidos aos maiores escarneios, a maiores torturas, os soldados franceses pegando ratos e enfiando no colo das mulheres, no peito, para espantar, coisa horrorosa. E, no meio disso, nós ficamos, até que, de repetente, se ouve que existia um Dom Quixote que se chamava...meu Deus do céu, me escapa, agora...o famoso Embaixador Dantas, Dantas (...) que disse o seguinte: 'Abre as portas da Embaixada que eu vou dar vistos diplomáticos'. E deu. Deu vistos diplomáticos. Nós pegamos os vistos diplomáticos e esperamos como sair. Era a única possibilidade, vistos que davam para o Brasil. (...)

Lembro que, não havendo aqui Consulado, me vi obrigado, sem perder uma minuto, a assumir funções consulares para, literalmente, salvar vidas humanas, por motivo da maior catástrofe que sofreu até hoje a humanidade. Fiz o que teria feito, com a nobreza dalma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã. (Fábio Koifman – “O Quixote nas Trevas: O embaixador Souza Dantas e os refugiados do nazismo”) [2]
Nos créditos finais, a tarefa de fazer uma lista de refugiados e imigrantes que contribuíram para a nossa cultura. Alberto Dines, Fábio Koifman, Vera Melo, muitas mensagens e várias biografias interessantíssimas. Em três meses, tivemos muitas listas, nelas a responsabilidade de eleger nomes mais conhecidos para chamar atenção sobre grandes personalidades que aqui deixaram raízes. Difícil tarefa, havia muito mais pessoas a citar que o tempo para ler os créditos do filme. Reduzimos ao máximo as pequenas biografias, fizemos fichas de grandes personalidades, apenas o essencial, agora compartilhamos abaixo, como no filme, a homenagem de Daniel aos refugiados da Segunda Guerra Mundial no Brasil.




Nossos agradecimentos a:

Anatol Rosenfeld (Alemanha, 1912 – São Paulo, 1973).
Ensaísta, crítico literário e professor.
Fugiu da Alemanha no final das Olimpíadas de 1936, quando aumentava a perseguição antissemita, e radicou-se no Brasil.


Berta Loran (Polônia, 1926).
Atriz.
Chegou com a família ao Brasil antes da invasão alemã ao seu país em 1939.

Eric Rzepecki (Polônia, 1913 – Rio de Janeiro, 1993).
Maquiador.
Preso por mais de três anos em campos de concentração na Alemanha, conseguiu fugir em 1943 e veio para o Brasil em 1946.

Emeric Marcier (Romênia, 1916 – Paris, 1990).
Pintor e muralista.
Em consequência da II Guerra Mundial, foi para Paris, depois para Lisboa e chegou ao Brasil em 1940, após ter o visto negado para os Estados Unidos.

Eugen Szenkar (Hungria, 1888 – São Paulo, 1977).
Músico e maestro.
Chegou ao Brasil em 1939, a bordo do vapor Mendonça. Foi um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Brasileira e seu primeiro regente titular.

Frans Krajcberg (Polônia, 1921).
Escultor, pintor, fotógrafo e gravador.
Perdeu todos os integrantes de sua família, executados em campos de concentração. Chegou ao Brasil em 1948.

Friedrich Gustav Brieger (Alemanha, 1900 – São Paulo, 1985).
Botânico e geneticista.
Quando os nazistas assumiram o poder na Alemanha, aceitou convite para lecionar no Brasil, onde trabalhou em laboratórios de pesquisa genética.

Fritz Feigl (Áustria, 1891 – São Paulo, 1971).
Químico e pesquisador.
Por causa do nazismo, passou pela Bélgica, França e finalmente Brasil. Com a ajuda do embaixador Souza Dantas, chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1940.

Giorgio Mortara (Itália, 1885 – Rio de Janeiro, 1967).
Estatístico e demógrafo.
Veio para o Brasil em 1938, fugindo do fascismo, e passou a trabalhar no IBGE.

Jean Manzon (Paris, 1915 – Portugal, 1990).
Fotógrafo, cinegrafista e diretor.
Lutou na Batalha de Dunquerque, refugiou-se em Londres na fuga ao cerco nazista, e chegou ao Brasil em 1940.

Nydia Lícia (Itália, 1926).
Atriz, diretora e professora.
Imigrou com os pais para o Brasil em 1939. Fundou com o marido Sérgio Cardoso o Teatro Brasileiro de Comédia.

Otello Zeloni (Roma, 1921 – São Paulo, 1973).
Ator de teatro, cinema e televisão.
Foi piloto da Força Aérea Italiana, fugiu da frente de batalha na garupa de um motociclista, depois de dois acidentes, e chegou ao Brasil em 1943.

Otto Maria Carpeaux – Otto Maria Karpfen (Áustria, 1900 – Rio de Janeiro, 1978).
Jornalista, crítico e escritor.
Lutou contra o nazismo em Viena até princípios de 1938, quando fugiu, e no final de 1939 veio para o Brasil com sua mulher.

Paulo Rónai (Hungria, 1907 – Rio de Janeiro, 1992).
Tradutor literário, escritor, filólogo e professor.
Chegou ao Brasil em 1941. Fluente em nove idiomas, traduziu para o português mais de 100 obras literárias.

Stefan Zweig (Áustria, 1881 – Petrópolis, 1942).
Poeta, dramaturgo, historiador e biógrafo.
Em 1940, assustado com a queda de Paris e o avanço nazista, já com a cidadania britânica, viajou para o Brasil a fim de colher material para o livro Brasil, País do Futuro, uma interpretação do Brasil e do espírito dos brasileiros.

Ziembinski – Zbigniew Marian Ziembinski (Polônia, 1908 – São Paulo, 1978).
Ator e diretor.
Chegou ao Brasil em 1941, ator e diretor na Polônia, sem saber pronunciar uma palavra em português. Revolucionou o teatro brasileiro na direção da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Recebeu a Ordem ao Mérito Cultural Polonesa, reconhecimento de seu país ao trabalho a favor da arte brasileira.

... e a tantos outros que a II Guerra Mundial tornou brasileiros.


NOTAS: [1] O artigo 1° da Convenção das Nações Unidas, emendado pelo Protocolo de 1967, dá a definição de refugiado como sendo toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo.
São tidos como refugiados aquelas pessoas que são forçadas a fugirem de seus países, individualmente ou parte de evasão em massa, devido a questões políticas, religiosas, militares ou quaisquer outros problemas. A definição de refugiado pode variar de acordo o tempo e o lugar, mas a crescente preocupação internacional com a difícil situação dos refugiados levou a um consenso geral sobre o termo.

Embora a definição encontrada na Convenção dos Refugiados tem sido utilizada pelas organizações internacionais, como as Nações Unidas, o termo continua a ser mal empregado e erroneamente utilizado na linguagem comum do dia-a-dia. Os meios de comunicação, por exemplo, freqüentemente confundem os refugiados com as pessoas que migram por razões econômicas (“imigrantes”) ou com grupos de perseguidos que se mantém dentro de seus próprios países e não cruzam nenhuma fronteira internacional (“deslocados internos”).

O “exílio” (do latim exilium banimento, degredo) é o estado de estar longe da própria casa (seja cidade ou nação) e pode ser definido como a expatriação - voluntária ou forçada de um indivíduo. Também podemos utilizar as palavras, banimento, desterro ou degredo. Alguns autores utilizam o termo exilado no sentido de refugiado.

Convenção de Genebra Relativa à Proteção de Pessoas Civis em Tempos de Guerra (1949) (artigos 44, 70)

Essa convenção protege os refugiados durante a guerra. Os refugiados não podem ser tratados como “inimigos estrangeiros”.

Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951)
Este foi o primeiro acordo internacional a cobrir os mais importantes aspectos da vida de um refugiado. Nele foi explicitado um conjunto de direitos humanos que ao menos deveriam ser equivalentes às liberdades que gozam os imigrantes que vivem legalmente em um determinado país e, em muitas ocasiões, igual às dos nacionais daquela nação. Também reconheceu a dimensão internacional da questão dos refugiados e a necessidade da cooperação internacional – incluindo as obrigações bilaterais entre os Estados – para se enfrentar o problema.

A Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados, também conhecida como Convenção de Genebra de 1951, define o que é um refugiado e estabelece os direitos dos indivíduos aos quais é concedido o direito de asilo bem como as responsabilidades das nações concedentes.

A convenção também estabelece quais as pessoas que não podem ser qualificadas como refugiados, tais como criminosos de guerra. Também garante a livre circulação para portadores de documento de viagem emitido sob a convenção.

A convenção foi aprovada por uma conferência especial das Nações Unidas, em 28 de julho de 1951. Inicialmente limitava-se a proteger refugiados europeus, após a Segunda Guerra Mundial, mas o Protocolo de 1967 removeu os limites geográficos e temporais, expandindo o escopo da Convenção.

Uma vez que a convenção foi aprovada em Genebra, é frequentemente referida como "Convenção de Genebra", embora não seja uma das Convenções de Genebra especificamente voltadas para a regulação da conduta em tempo de guerra.
Em 1967, foram removidas as restrições geográficas e temporais que havia, e esse protocolo unificou diversas resoluções a respeito.
Em Julho de 2001, foi feita uma publicação em comemoração aos 50 anos de existência da ACNUR.
Até 1° de outubro de 2002, 141 países já haviam ratificado a Convenção dos Refugiados.

Atualmente, há mais de 75 mil refugiados no Brasil, a maioria originária da África (62%), Europa Oriental, América do Sul e Oriente Médio.
[2] Luís Martins de Sousa Dantas (Rio de Janeiro, 1876 — Paris, 1954). Em 1940, com a iminência da invasão alemã no Norte da França, o governo francês se retirou para o Sul, instalando um governo colaboracionista na cidade de Vichy. Naturalmente, o corpo diplomático estrangeiro o acompanhou. Registros dessa época mostram que Souza Dantas já vinha intercedendo em favor de refugiados do nazismo desde a sua saída de Paris. É possível comprovar o envolvimento pessoal e direto do embaixador, que começou a emitir os primeiros vistos diplomáticos “irregulares” de próprio punho. A maioria desses documentos foi concedida em Vichy e beneficiava não apenas judeus, mas também homossexuais, comunistas e qualquer pessoa ameaçada pelo nazismo.
No entanto, de acordo com a legislação vigente na época, era raro um embaixador conceder pessoalmente um visto, e isto só costumava ser feito em casos excepcionais. Para um “indesejável” receber um visto – mesmo o que se encaixava nas poucas exceções preestabelecidas –, era necessário apresentar uma série de documentos, como atestados negativos de antecedentes criminais, de “não ser de conduta nociva à ordem pública”, de saúde e prova de profissão lícita, entre outros. Era muito difícil conseguir estas declarações, principalmente para os refugiados que se encontravam longe de seus países de origem. A autoridade consular brasileira que emitia o visto, por sua vez, tinha a obrigação de informar a “origem étnica” do estrangeiro.
Uma grande quantidade de pessoas que requeriam vistos era apátrida, portadoras de passaportes “Nansen” – fornecidos pela Liga das Nações para indivíduos expatriados por causa de problemas políticos. Outras não possuíam qualquer tipo de documento para viajar. Algumas provinham de países que se encontravam tecnicamente extintos naquele momento devido aos conflitos ou cujos governos não os reconheciam mais como cidadãos. A exigência de uma série de documentos e certidões dos imigrantes tinha, na realidade, a função de impedir a entrada de refugiados no Brasil.
No dia em que Souza Dantas deixou Paris rumo a Vichy, já no caminho, ao passar por cidades como Perpignan e Bordeux, começou a assinar passaportes e documentos de viagem de estrangeiros, a maioria refugiados. Não eram pessoas “especiais” ou “importantes”, mas gente comum. Ele não seguiu nenhuma regra do governo brasileiro, não exigiu taxas, transferências bancárias, declarações ou atestados, e tampouco perguntou ou informou a alguém a origem étnica dos pretendentes.
Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre meados de junho de 1940 e 12 de dezembro do mesmo ano – data em que Souza Dantas foi proibido formalmente de conceder qualquer tipo de visto. Entretanto, de acordo com depoimentos, muitos refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro de 1940. Ou seja, ele ainda concedeu alguns vistos, mesmo depois de ter sido repreendido e proibido.
Por causa da presença de soldados brasileiros na guerra, das notícias da resistência de Souza Dantas à invasão da embaixada em Vichy e de seu longo internamento na Alemanha, os jornais brasileiros passaram a tratá-lo como herói. Mas a transformação do diplomata processado pelo governo em herói não agradou ao ditador Vargas. Rapidamente, as notícias de homenagens a Souza Dantas sumiram da mídia, então controlada rigidamente pelo Estado. Enquanto durou o Estado Novo, Getulio tratou de manter o diplomata fora de evidência no Brasil. Com a queda da ditadura em 1945, o velho embaixador saiu do ostracismo graças à influência política de antigos companheiros do Itamaraty.
Já aposentado, Souza Dantas foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para chefiar a delegação brasileira na Primeira Assembléia Geral das Nações Unidas, em Londres em 1946. Souza Dantas passou seus últimos anos de vida em Paris, falecendo em 1954.Em 2003 foi proclamado Justo entre as nações, título atribuído a pessoas que arriscaram suas vidas para ajudar os judeus perseguidos pelo regimes nazista e fascista.

sábado, 10 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

o que a internet faz com o nosso cérebro




"Dave, stop. Stop, will you? Stop, Dave. Will you stop, Dave?” So the supercomputer HAL pleads with the implacable astronaut Dave Bowman in a famous and weirdly poignant scene toward the end of Stanley Kubrick’s 2001: A Space Odyssey. Bowman, having nearly been sent to a deep-space death by the malfunctioning machine, is calmly, coldly disconnecting the memory circuits that control its artificial “ brain. “Dave, my mind is going,” HAL says, forlornly. “I can feel it. I can feel it.”
I can feel it, too. Over the past few years I’ve had an uncomfortable sense that someone, or something, has been tinkering with my brain, remapping the neural circuitry, reprogramming the memory. My mind isn’t going—so far as I can tell—but it’s changing. I’m not thinking the way I used to think. I can feel it most strongly when I’m reading. Immersing myself in a book or a lengthy article used to be easy. My mind would get caught up in the narrative or the turns of the argument, and I’d spend hours strolling through long stretches of prose. That’s rarely the case anymore. Now my concentration often starts to drift after two or three pages. I get fidgety, lose the thread, begin looking for something else to do. I feel as if I’m always dragging my wayward brain back to the text. The deep reading that used to come naturally has become a struggle.
I think I know what’s going on. For more than a decade now, I’ve been spending a lot of time online, searching and surfing and sometimes adding to the great databases of the Internet. The Web has been a godsend to me as a writer. Research that once required days in the stacks or periodical rooms of libraries can now be done in minutes. A few Google searches, some quick clicks on hyperlinks, and I’ve got the telltale fact or pithy quote I was after. Even when I’m not working, I’m as likely as not to be foraging in the Web’s info-thickets’reading and writing e-mails, scanning headlines and blog posts, watching videos and listening to podcasts, or just tripping from link to link to link. (Unlike footnotes, to which they’re sometimes likened, hyperlinks don’t merely point to related works; they propel you toward them.)
For me, as for others, the Net is becoming a universal medium, the conduit for most of the information that flows through my eyes and ears and into my mind. The advantages of having immediate access to such an incredibly rich store of information are many, and they’ve been widely described and duly applauded. “The perfect recall of silicon memory,” Wired’s Clive Thompson has written, “can be an enormous boon to thinking.” But that boon comes at a price. As the media theorist Marshall McLuhan pointed out in the 1960s, media are not just passive channels of information. They supply the stuff of thought, but they also shape the process of thought. And what the Net seems to be doing is chipping away my capacity for concentration and contemplation. My mind now expects to take in information the way the Net distributes it: in a swiftly moving stream of particles. Once I was a scuba diver in the sea of words. Now I zip along the surface like a guy on a Jet Ski.
I’m not the only one. When I mention my troubles with reading to friends and acquaintances—literary types, most of them—many say they’re having similar experiences. The more they use the Web, the more they have to fight to stay focused on long pieces of writing. Some of the bloggers I follow have also begun mentioning the phenomenon. Scott Karp, who writes a blog about online media, recently confessed that he has stopped reading books altogether. “I was a lit major in college, and used to be [a] voracious book reader,” he wrote. “What happened?” He speculates on the answer: “What if I do all my reading on the web not so much because the way I read has changed, i.e. I’m just seeking convenience, but because the way I THINK has changed?”
Bruce Friedman, who blogs regularly about the use of computers in medicine, also has described how the Internet has altered his mental habits. “I now have almost totally lost the ability to read and absorb a longish article on the web or in print,” he wrote earlier this year. A pathologist who has long been on the faculty of the University of Michigan Medical School, Friedman elaborated on his comment in a telephone conversation with me. His thinking, he said, has taken on a “staccato” quality, reflecting the way he quickly scans short passages of text from many sources online. “I can’t read War and Peace anymore,” he admitted. “I’ve lost the ability to do that. Even a blog post of more than three or four paragraphs is too much to absorb. I skim it.”
Anecdotes alone don’t prove much. And we still await the long-term neurological and psychological experiments that will provide a definitive picture of how Internet use affects cognition. But a recently published study of online research habits , conducted by scholars from University College London, suggests that we may well be in the midst of a sea change in the way we read and think. As part of the five-year research program, the scholars examined computer logs documenting the behavior of visitors to two popular research sites, one operated by the British Library and one by a U.K. educational consortium, that provide access to journal articles, e-books, and other sources of written information. They found that people using the sites exhibited “a form of skimming activity,” hopping from one source to another and rarely returning to any source they’d already visited. They typically read no more than one or two pages of an article or book before they would “bounce” out to another site. Sometimes they’d save a long article, but there’s no evidence that they ever went back and actually read it. The authors of the study report:
It is clear that users are not reading online in the traditional sense; indeed there are signs that new forms of “reading” are emerging as users “power browse” horizontally through titles, contents pages and abstracts going for quick wins. It almost seems that they go online to avoid reading in the traditional sense.
Thanks to the ubiquity of text on the Internet, not to mention the popularity of text-messaging on cell phones, we may well be reading more today than we did in the 1970s or 1980s, when television was our medium of choice. But it’s a different kind of reading, and behind it lies a different kind of thinking—perhaps even a new sense of the self. “We are not only what we read,” says Maryanne Wolf, a developmental psychologist at Tufts University and the author of Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain. “We are how we read.” Wolf worries that the style of reading promoted by the Net, a style that puts “efficiency” and “immediacy” above all else, may be weakening our capacity for the kind of deep reading that emerged when an earlier technology, the printing press, made long and complex works of prose commonplace. When we read online, she says, we tend to become “mere decoders of information.” Our ability to interpret text, to make the rich mental connections that form when we read deeply and without distraction, remains largely disengaged.
Reading, explains Wolf, is not an instinctive skill for human beings. It’s not etched into our genes the way speech is. We have to teach our minds how to translate the symbolic characters we see into the language we understand. And the media or other technologies we use in learning and practicing the craft of reading play an important part in shaping the neural circuits inside our brains. Experiments demonstrate that readers of ideograms, such as the Chinese, develop a mental circuitry for reading that is very different from the circuitry found in those of us whose written language employs an alphabet. The variations extend across many regions of the brain, including those that govern such essential cognitive functions as memory and the interpretation of visual and auditory stimuli. We can expect as well that the circuits woven by our use of the Net will be different from those woven by our reading of books and other printed works.
Sometime in 1882, Friedrich Nietzsche bought a typewriter—a Malling-Hansen Writing Ball, to be precise. His vision was failing, and keeping his eyes focused on a page had become exhausting and painful, often bringing on crushing headaches. He had been forced to curtail his writing, and he feared that he would soon have to give it up. The typewriter rescued him, at least for a time. Once he had mastered touch-typing, he was able to write with his eyes closed, using only the tips of his fingers. Words could once again flow from his mind to the page.
But the machine had a subtler effect on his work. One of Nietzsche’s friends, a composer, noticed a change in the style of his writing. His already terse prose had become even tighter, more telegraphic. “Perhaps you will through this instrument even take to a new idiom,” the friend wrote in a letter, noting that, in his own work, his “‘thoughts’ in music and language often depend on the quality of pen and paper.”
Also see:

Living With a Computer

(July 1982)
"The process works this way. When I sit down to write a letter or start the first draft of an article, I simply type on the keyboard and the words appear on the screen..." By James Fallows

“You are right,” Nietzsche replied, “our writing equipment takes part in the forming of our thoughts.” Under the sway of the machine, writes the German media scholar Friedrich A. Kittler , Nietzsche’s prose “changed from arguments to aphorisms, from thoughts to puns, from rhetoric to telegram style.”
The human brain is almost infinitely malleable. People used to think that our mental meshwork, the dense connections formed among the 100 billion or so neurons inside our skulls, was largely fixed by the time we reached adulthood. But brain researchers have discovered that that’s not the case. James Olds, a professor of neuroscience who directs the Krasnow Institute for Advanced Study at George Mason University, says that even the adult mind “is very plastic.” Nerve cells routinely break old connections and form new ones. “The brain,” according to Olds, “has the ability to reprogram itself on the fly, altering the way it functions.”
As we use what the sociologist Daniel Bell has called our “intellectual technologies”—the tools that extend our mental rather than our physical capacities—we inevitably begin to take on the qualities of those technologies. The mechanical clock, which came into common use in the 14th century, provides a compelling example. In Technics and Civilization, the historian and cultural critic Lewis Mumford described how the clock “disassociated time from human events and helped create the belief in an independent world of mathematically measurable sequences.” The “abstract framework of divided time” became “the point of reference for both action and thought.”
The clock’s methodical ticking helped bring into being the scientific mind and the scientific man. But it also took something away. As the late MIT computer scientist Joseph Weizenbaum observed in his 1976 book, Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation, the conception of the world that emerged from the widespread use of timekeeping instruments “remains an impoverished version of the older one, for it rests on a rejection of those direct experiences that formed the basis for, and indeed constituted, the old reality.” In deciding when to eat, to work, to sleep, to rise, we stopped listening to our senses and started obeying the clock.
The process of adapting to new intellectual technologies is reflected in the changing metaphors we use to explain ourselves to ourselves. When the mechanical clock arrived, people began thinking of their brains as operating “like clockwork.” Today, in the age of software, we have come to think of them as operating “like computers.” But the changes, neuroscience tells us, go much deeper than metaphor. Thanks to our brain’s plasticity, the adaptation occurs also at a biological level.
The Internet promises to have particularly far-reaching effects on cognition. In a paper published in 1936, the British mathematician Alan Turing proved that a digital computer, which at the time existed only as a theoretical machine, could be programmed to perform the function of any other information-processing device. And that’s what we’re seeing today. The Internet, an immeasurably powerful computing system, is subsuming most of our other intellectual technologies. It’s becoming our map and our clock, our printing press and our typewriter, our calculator and our telephone, and our radio and TV.
When the Net absorbs a medium, that medium is re-created in the Net’s image. It injects the medium’s content with hyperlinks, blinking ads, and other digital gewgaws, and it surrounds the content with the content of all the other media it has absorbed. A new e-mail message, for instance, may announce its arrival as we’re glancing over the latest headlines at a newspaper’s site. The result is to scatter our attention and diffuse our concentration.
The Net’s influence doesn’t end at the edges of a computer screen, either. As people’s minds become attuned to the crazy quilt of Internet media, traditional media have to adapt to the audience’s new expectations. Television programs add text crawls and pop-up ads, and magazines and newspapers shorten their articles, introduce capsule summaries, and crowd their pages with easy-to-browse info-snippets. When, in March of this year, TheNew York Times decided to devote the second and third pages of every edition to article abstracts , its design director, Tom Bodkin, explained that the “shortcuts” would give harried readers a quick “taste” of the day’s news, sparing them the “less efficient” method of actually turning the pages and reading the articles. Old media have little choice but to play by the new-media rules.
Never has a communications system played so many roles in our lives—or exerted such broad influence over our thoughts—as the Internet does today. Yet, for all that’s been written about the Net, there’s been little consideration of how, exactly, it’s reprogramming us. The Net’s intellectual ethic remains obscure.
About the same time that Nietzsche started using his typewriter, an earnest young man named Frederick Winslow Taylor carried a stopwatch into the Midvale Steel plant in Philadelphia and began a historic series of experiments aimed at improving the efficiency of the plant’s machinists. With the approval of Midvale’s owners, he recruited a group of factory hands, set them to work on various metalworking machines, and recorded and timed their every movement as well as the operations of the machines. By breaking down every job into a sequence of small, discrete steps and then testing different ways of performing each one, Taylor created a set of precise instructions—an “algorithm,” we might say today—for how each worker should work. Midvale’s employees grumbled about the strict new regime, claiming that it turned them into little more than automatons, but the factory’s productivity soared.
More than a hundred years after the invention of the steam engine, the Industrial Revolution had at last found its philosophy and its philosopher. Taylor’s tight industrial choreography—his “system,” as he liked to call it—was embraced by manufacturers throughout the country and, in time, around the world. Seeking maximum speed, maximum efficiency, and maximum output, factory owners used time-and-motion studies to organize their work and configure the jobs of their workers. The goal, as Taylor defined it in his celebrated 1911 treatise, The Principles of Scientific Management, was to identify and adopt, for every job, the “one best method” of work and thereby to effect “the gradual substitution of science for rule of thumb throughout the mechanic arts.” Once his system was applied to all acts of manual labor, Taylor assured his followers, it would bring about a restructuring not only of industry but of society, creating a utopia of perfect efficiency. “In the past the man has been first,” he declared; “in the future the system must be first.”
Taylor’s system is still very much with us; it remains the ethic of industrial manufacturing. And now, thanks to the growing power that computer engineers and software coders wield over our intellectual lives, Taylor’s ethic is beginning to govern the realm of the mind as well. The Internet is a machine designed for the efficient and automated collection, transmission, and manipulation of information, and its legions of programmers are intent on finding the “one best method”—the perfect algorithm—to carry out every mental movement of what we’ve come to describe as “knowledge work.”
Google’s headquarters, in Mountain View, California—the Googleplex—is the Internet’s high church, and the religion practiced inside its walls is Taylorism. Google, says its chief executive, Eric Schmidt, is “a company that’s founded around the science of measurement,” and it is striving to “systematize everything” it does. Drawing on the terabytes of behavioral data it collects through its search engine and other sites, it carries out thousands of experiments a day, according to the Harvard Business Review, and it uses the results to refine the algorithms that increasingly control how people find information and extract meaning from it. What Taylor did for the work of the hand, Google is doing for the work of the mind.
The company has declared that its mission is “to organize the world’s information and make it universally accessible and useful.” It seeks to develop “the perfect search engine,” which it defines as something that “understands exactly what you mean and gives you back exactly what you want.” In Google’s view, information is a kind of commodity, a utilitarian resource that can be mined and processed with industrial efficiency. The more pieces of information we can “access” and the faster we can extract their gist, the more productive we become as thinkers.
Where does it end? Sergey Brin and Larry Page, the gifted young men who founded Google while pursuing doctoral degrees in computer science at Stanford, speak frequently of their desire to turn their search engine into an artificial intelligence, a HAL-like machine that might be connected directly to our brains. “The ultimate search engine is something as smart as people—or smarter,” Page said in a speech a few years back. “For us, working on search is a way to work on artificial intelligence.” In a 2004 interview with Newsweek, Brin said, “Certainly if you had all the world’s information directly attached to your brain, or an artificial brain that was smarter than your brain, you’d be better off.” Last year, Page told a convention of scientists that Google is “really trying to build artificial intelligence and to do it on a large scale.”
Such an ambition is a natural one, even an admirable one, for a pair of math whizzes with vast quantities of cash at their disposal and a small army of computer scientists in their employ. A fundamentally scientific enterprise, Google is motivated by a desire to use technology, in Eric Schmidt’s words, “to solve problems that have never been solved before,” and artificial intelligence is the hardest problem out there. Why wouldn’t Brin and Page want to be the ones to crack it?
Still, their easy assumption that we’d all “be better off” if our brains were supplemented, or even replaced, by an artificial intelligence is unsettling. It suggests a belief that intelligence is the output of a mechanical process, a series of discrete steps that can be isolated, measured, and optimized. In Google’s world, the world we enter when we go online, there’s little place for the fuzziness of contemplation. Ambiguity is not an opening for insight but a bug to be fixed. The human brain is just an outdated computer that needs a faster processor and a bigger hard drive.
The idea that our minds should operate as high-speed data-processing machines is not only built into the workings of the Internet, it is the network’s reigning business model as well. The faster we surf across the Web—the more links we click and pages we view—the more opportunities Google and other companies gain to collect information about us and to feed us advertisements. Most of the proprietors of the commercial Internet have a financial stake in collecting the crumbs of data we leave behind as we flit from link to link—the more crumbs, the better. The last thing these companies want is to encourage leisurely reading or slow, concentrated thought. It’s in their economic interest to drive us to distraction.
Maybe I’m just a worrywart. Just as there’s a tendency to glorify technological progress, there’s a countertendency to expect the worst of every new tool or machine. In Plato’s Phaedrus, Socrates bemoaned the development of writing. He feared that, as people came to rely on the written word as a substitute for the knowledge they used to carry inside their heads, they would, in the words of one of the dialogue’s characters, “cease to exercise their memory and become forgetful.” And because they would be able to “receive a quantity of information without proper instruction,” they would “be thought very knowledgeable when they are for the most part quite ignorant.” They would be “filled with the conceit of wisdom instead of real wisdom.” Socrates wasn’t wrong—the new technology did often have the effects he feared—but he was shortsighted. He couldn’t foresee the many ways that writing and reading would serve to spread information, spur fresh ideas, and expand human knowledge (if not wisdom).
The arrival of Gutenberg’s printing press, in the 15th century, set off another round of teeth gnashing. The Italian humanist Hieronimo Squarciafico worried that the easy availability of books would lead to intellectual laziness, making men “less studious” and weakening their minds. Others argued that cheaply printed books and broadsheets would undermine religious authority, demean the work of scholars and scribes, and spread sedition and debauchery. As New York University professor Clay Shirky notes, “Most of the arguments made against the printing press were correct, even prescient.” But, again, the doomsayers were unable to imagine the myriad blessings that the printed word would deliver.
So, yes, you should be skeptical of my skepticism. Perhaps those who dismiss critics of the Internet as Luddites or nostalgists will be proved correct, and from our hyperactive, data-stoked minds will spring a golden age of intellectual discovery and universal wisdom. Then again, the Net isn’t the alphabet, and although it may replace the printing press, it produces something altogether different. The kind of deep reading that a sequence of printed pages promotes is valuable not just for the knowledge we acquire from the author’s words but for the intellectual vibrations those words set off within our own minds. In the quiet spaces opened up by the sustained, undistracted reading of a book, or by any other act of contemplation, for that matter, we make our own associations, draw our own inferences and analogies, foster our own ideas. Deep reading, as Maryanne Wolf argues, is indistinguishable from deep thinking.
If we lose those quiet spaces, or fill them up with “content,” we will sacrifice something important not only in our selves but in our culture. In a recent essay, the playwright Richard Foreman eloquently described what’s at stake:
I come from a tradition of Western culture, in which the ideal (my ideal) was the complex, dense and “cathedral-like” structure of the highly educated and articulate personality—a man or woman who carried inside themselves a personally constructed and unique version of the entire heritage of the West. [But now] I see within us all (myself included) the replacement of complex inner density with a new kind of self—evolving under the pressure of information overload and the technology of the “instantly available.”
As we are drained of our “inner repertory of dense cultural inheritance,” Foreman concluded, we risk turning into “‘pancake people’—spread wide and thin as we connect with that vast network of information accessed by the mere touch of a button.”
I’m haunted by that scene in 2001. What makes it so poignant, and so weird, is the computer’s emotional response to the disassembly of its mind: its despair as one circuit after another goes dark, its childlike pleading with the astronaut—“I can feel it. I can feel it. I’m afraid”—and its final reversion to what can only be called a state of innocence. HAL’s outpouring of feeling contrasts with the emotionlessness that characterizes the human figures in the film, who go about their business with an almost robotic efficiency. Their thoughts and actions feel scripted, as if they’re following the steps of an algorithm. In the world of 2001, people have become so machinelike that the most human character turns out to be a machine. That’s the essence of Kubrick’s dark prophecy: as we come to rely on computers to mediate our understanding of the world, it is our own intelligence that flattens into artificial intelligence.
Nicholas Carr’s most recent book, The Big Switch: Rewiring the World, From Edison to Google, was published earlier this year.