quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A pesquisa audiovisual: arte e conteúdo

O FILME TEMPOS DE PAZ

No dia 18 de abril de 1945 desembarca no porto do Rio, o ator polonês Clausewistz. É ali, no setor de imigração que se desenvolve o diálogo entre Segismundo, agente da polícia política do governo de Getúlio Vargas e o Clausewistz, que diz ser agricultor.
No momento que a guerra chegava ao fim – que os presos dos principais campos de concentração eram libertados e Vargas concedia anistia aos nossos presos políticos (entre eles, Luis Carlos Prestes) - um ex-ator se defronta com um ex-torturador.

A PESQUISA DE TEMPOS DE PAZ
A pesquisa procurou dar referências para as equipes criarem os personagens com verossimilhança, ou seja, situações com uma probabilidade de verdade. A memória foi uma das principais fontes de informação. Entre as ferramentas mais importantes estão as consultas aos relatos biográficos e as conversas com pesquisadores, jornalistas e estudiosos do assunto: Alberto Dines, Fábio Koifman, Helena Lewin, Matias Marcier, Georgina Koifman, Maria Luiza Tucci Carneiro, Ruth Freihof, entre outros.

Em vários museus de várias partes do mundo, existem arquivos de história oral, os refugiados da segunda guerra deixaram importantes depoimentos sobre suas experiências.

Uma ficção com pitadinhas de realidade

Matias Marcier, nos presenteou com o livro biográfico de seu pai, Emeric, onde achamos nosso primeiro “Clausewistz”:
O pequeno judeu da Galícia, possuidor de um passaporte da República Dominicana, me perguntava de que país eu era e eu, procurando criar um mistério à volta da minha pessoa, dizia que era de muito "longe", tendo que ouvir a resposta exata que naquele momento, e naquele ponto do Atlântico, todos éramos absolutamente distantes de todos os lugares do mundo... A diversidade dos destinos de tanta gente que o navio carregava somente podia ter fins variados na hora da chegada. Seríamos todos triturados e despejados, esse processo já se fazia sentir durante a travessia naquele caldeirão tropical. Aqueles "emigrantes" que, mesmo depois, ficariam grudados, seriam como conglomerados, resíduos açucarados no fundo do tacho sobre o fogo intenso onde se cozinha a goiabada. Ainda tentava fazer alguns desenhos para apressar a hora da chegada—fortemente marcado pela herança surrealista, esse invólucro teria que estourar ao contato com a "vida".A angústia que carregava no peito, sem querer um minuto me sentir salvo de algum perigo, só podia ter como causa o "medo" —não mais da soldadesca, brutalidade fascista, bombardeios, ou de qualquer terror visível —,mas apenas o "Medo" simplesmente de existir, que deve ser nossa primeira reação tivemos quando viemos ao mundo.Amor e medo se excluem reciprocamente, daí a razão da desesperada procura do amor para viver sem medo.Lendo as estórias infantis, somente se podia imaginar uma longa viagem pelos mares desconhecidos com o súbito aparecimento da terra, ou qualquer indício de proximidade da mesma. Multiplicação de gaivotas pousadas nos mastros e cabos da embarcação. Não dispondo de binóculo, visto a olho nu, lentamente se desenhava no horizonte algo que podia ser a "terra".Céu carregado de nuvens escuras e assim mesmo luminosas, contra o qual se recortavam coqueiros envergados sob o forte vento. Passavam-se as horas; cada vez mais perto do continente, as cores azuis que dominavam nossa viagem se mudaram em profundo verde-acinzentado, que dificultava a percepção nítida da costa bordada de milhares de coqueiros.Como se as máquinas tivessem parado de trabalhar no bojo do navio, cansadas depois de tantos dias de esforço ininterrupto, entramos lentamente no porto de Recife. Sob a chuva miúda, centenas de guarda-chuvas, abrigando a multidão, que esperava a nave atracar ao cais. Cabeças cobertas de chapéus de panamá, de terno de linho, ou brim branco, essa gente saudava o Conte Grande com redobrada curiosidade, pois ele vinha da Europa conflagrada.(...)Lúcio me chamou a atenção para o nome do minúsculo rebocador, Gigante, que estava puxando o nosso barco para dentro do porto. O espetáculo grandioso da baía de Guanabara, com as praias da Glória, Flamengo, Botafogo, na época ainda muito fiéis às gravuras do século XIX, com prédios baixos, que não interferiam na paisagem, como hoje é o caso da muralha de concreto. Sem computadores, sem complicados fichários, os passageiros foram desembarcados após rápida conferência dos papéis e controle de saúde. Minha exígua bagagem, uma mala com roupas e uma pasta com trabalhos, não criou problemas maiores. (Deportado para a vida, autobiografia de Emeric Marcier).

Na preparação do filme, pesquisamos referências para direção – conteúdo para colaborar na composição das cenas com os atores – desde a leitura de livros sobre o assunto a músicas polonesas, jornais, programas de rádio, filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, todas as informações eram repassadas para os assistentes de direção e traziam informações para a atmosfera do filme. Para os departamentos de cenografia e figurino, procuramos imagens sobre os costumes dos anos 40, fotos de imigrantes e refugiados, do ambiente portuário, de documentos como passaportes e ofícios, de uniformes dos oficiais e da guarda portuária, de mobiliários, etc.

Para a seqüência de abertura do filme, imagens de documentários, de cinejornais de vários acervos de imagens nacionais e internacionais. Achar registros fílmicos, cinematográficos para o passado de Clausewistz, o que ele viu antes de embarcar, a busca por imagens da vida de civil, não pela experiência militar nem pela visão épica da guerra. A Diana e o Daniel souberam achar a atmosfera dessa montagem, a perspectiva humana.

Vários depoimentos vieram através do jornalista e escritor Alberto Dines, incansável colaborador, nos permitiu acesso a uma série de arquivos pessoais e documentos de pesquisa, realizados pela equipe da Casa de Stefan Zweig. Além de participar de nossa homenagem aos refugiados e sugerir muito dos biografados, dele veio a premissa básica, saber o que é um refugiado – além da fundamental compreensão da diferença entre as definições de imigrantes, exilados e refugiados.

“O refugiado não pode voltar para a sua casa. Se o refugiado voltar corre o risco de ser preso, morto ou torturado.”Luis Varese é peruano. Jornalista e antropólogo, consultor do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).[1]

Nosso consultor, Fábio Koifman nos enviou uma entrevista de Ziembiński no Programa “Fantástico”, narrando seu encontro com o Embaixador Souza Dantas.

Durante esse tempo todo que estava na França, todo mundo e eu queria ir para algum lugar. O problema era sair da Europa, era sair de lá. Porque todos nós, não éramos carne para os canhões, automaticamente, éramos indesejáveis, então, éramos elementos de maior ataque, de maior desconfiança, todos éramos espiões. De qualquer lado, não importa. Lado alemão, lado francês. Qualquer um. Todo mundo era indesejável. Então, todo mundo era, a qualquer momento, ameaçado de alguma coisa. Então, queria ir embora. Queria entrar em qualquer lugar onde se pudesse colocar para poder ir embora. Tentava-se visto aqui, tentava-se visto ali, para a China, para a Nova Zelândia, sei lá, para qualquer lugar, Inglaterra, tudo, mas não havia possibilidade, porque ninguém dava. Então, ficavam aquelas filas intermináveis de duzentos, trezentos, quatrocentos metros na rua. Tinha gente deitada no chão, na frente das embaixadas, pedindo, esperando. 'Disseram que a Embaixada da Holanda vai abrir'. Aquele negócio. Submetidos aos maiores escarneios, a maiores torturas, os soldados franceses pegando ratos e enfiando no colo das mulheres, no peito, para espantar, coisa horrorosa. E, no meio disso, nós ficamos, até que, de repetente, se ouve que existia um Dom Quixote que se chamava...meu Deus do céu, me escapa, agora...o famoso Embaixador Dantas, Dantas (...) que disse o seguinte: 'Abre as portas da Embaixada que eu vou dar vistos diplomáticos'. E deu. Deu vistos diplomáticos. Nós pegamos os vistos diplomáticos e esperamos como sair. Era a única possibilidade, vistos que davam para o Brasil. (...)

Lembro que, não havendo aqui Consulado, me vi obrigado, sem perder uma minuto, a assumir funções consulares para, literalmente, salvar vidas humanas, por motivo da maior catástrofe que sofreu até hoje a humanidade. Fiz o que teria feito, com a nobreza dalma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã. (Fábio Koifman – “O Quixote nas Trevas: O embaixador Souza Dantas e os refugiados do nazismo”) [2]
Nos créditos finais, a tarefa de fazer uma lista de refugiados e imigrantes que contribuíram para a nossa cultura. Alberto Dines, Fábio Koifman, Vera Melo, muitas mensagens e várias biografias interessantíssimas. Em três meses, tivemos muitas listas, nelas a responsabilidade de eleger nomes mais conhecidos para chamar atenção sobre grandes personalidades que aqui deixaram raízes. Difícil tarefa, havia muito mais pessoas a citar que o tempo para ler os créditos do filme. Reduzimos ao máximo as pequenas biografias, fizemos fichas de grandes personalidades, apenas o essencial, agora compartilhamos abaixo, como no filme, a homenagem de Daniel aos refugiados da Segunda Guerra Mundial no Brasil.




Nossos agradecimentos a:

Anatol Rosenfeld (Alemanha, 1912 – São Paulo, 1973).
Ensaísta, crítico literário e professor.
Fugiu da Alemanha no final das Olimpíadas de 1936, quando aumentava a perseguição antissemita, e radicou-se no Brasil.


Berta Loran (Polônia, 1926).
Atriz.
Chegou com a família ao Brasil antes da invasão alemã ao seu país em 1939.

Eric Rzepecki (Polônia, 1913 – Rio de Janeiro, 1993).
Maquiador.
Preso por mais de três anos em campos de concentração na Alemanha, conseguiu fugir em 1943 e veio para o Brasil em 1946.

Emeric Marcier (Romênia, 1916 – Paris, 1990).
Pintor e muralista.
Em consequência da II Guerra Mundial, foi para Paris, depois para Lisboa e chegou ao Brasil em 1940, após ter o visto negado para os Estados Unidos.

Eugen Szenkar (Hungria, 1888 – São Paulo, 1977).
Músico e maestro.
Chegou ao Brasil em 1939, a bordo do vapor Mendonça. Foi um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Brasileira e seu primeiro regente titular.

Frans Krajcberg (Polônia, 1921).
Escultor, pintor, fotógrafo e gravador.
Perdeu todos os integrantes de sua família, executados em campos de concentração. Chegou ao Brasil em 1948.

Friedrich Gustav Brieger (Alemanha, 1900 – São Paulo, 1985).
Botânico e geneticista.
Quando os nazistas assumiram o poder na Alemanha, aceitou convite para lecionar no Brasil, onde trabalhou em laboratórios de pesquisa genética.

Fritz Feigl (Áustria, 1891 – São Paulo, 1971).
Químico e pesquisador.
Por causa do nazismo, passou pela Bélgica, França e finalmente Brasil. Com a ajuda do embaixador Souza Dantas, chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1940.

Giorgio Mortara (Itália, 1885 – Rio de Janeiro, 1967).
Estatístico e demógrafo.
Veio para o Brasil em 1938, fugindo do fascismo, e passou a trabalhar no IBGE.

Jean Manzon (Paris, 1915 – Portugal, 1990).
Fotógrafo, cinegrafista e diretor.
Lutou na Batalha de Dunquerque, refugiou-se em Londres na fuga ao cerco nazista, e chegou ao Brasil em 1940.

Nydia Lícia (Itália, 1926).
Atriz, diretora e professora.
Imigrou com os pais para o Brasil em 1939. Fundou com o marido Sérgio Cardoso o Teatro Brasileiro de Comédia.

Otello Zeloni (Roma, 1921 – São Paulo, 1973).
Ator de teatro, cinema e televisão.
Foi piloto da Força Aérea Italiana, fugiu da frente de batalha na garupa de um motociclista, depois de dois acidentes, e chegou ao Brasil em 1943.

Otto Maria Carpeaux – Otto Maria Karpfen (Áustria, 1900 – Rio de Janeiro, 1978).
Jornalista, crítico e escritor.
Lutou contra o nazismo em Viena até princípios de 1938, quando fugiu, e no final de 1939 veio para o Brasil com sua mulher.

Paulo Rónai (Hungria, 1907 – Rio de Janeiro, 1992).
Tradutor literário, escritor, filólogo e professor.
Chegou ao Brasil em 1941. Fluente em nove idiomas, traduziu para o português mais de 100 obras literárias.

Stefan Zweig (Áustria, 1881 – Petrópolis, 1942).
Poeta, dramaturgo, historiador e biógrafo.
Em 1940, assustado com a queda de Paris e o avanço nazista, já com a cidadania britânica, viajou para o Brasil a fim de colher material para o livro Brasil, País do Futuro, uma interpretação do Brasil e do espírito dos brasileiros.

Ziembinski – Zbigniew Marian Ziembinski (Polônia, 1908 – São Paulo, 1978).
Ator e diretor.
Chegou ao Brasil em 1941, ator e diretor na Polônia, sem saber pronunciar uma palavra em português. Revolucionou o teatro brasileiro na direção da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Recebeu a Ordem ao Mérito Cultural Polonesa, reconhecimento de seu país ao trabalho a favor da arte brasileira.

... e a tantos outros que a II Guerra Mundial tornou brasileiros.


NOTAS: [1] O artigo 1° da Convenção das Nações Unidas, emendado pelo Protocolo de 1967, dá a definição de refugiado como sendo toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo.
São tidos como refugiados aquelas pessoas que são forçadas a fugirem de seus países, individualmente ou parte de evasão em massa, devido a questões políticas, religiosas, militares ou quaisquer outros problemas. A definição de refugiado pode variar de acordo o tempo e o lugar, mas a crescente preocupação internacional com a difícil situação dos refugiados levou a um consenso geral sobre o termo.

Embora a definição encontrada na Convenção dos Refugiados tem sido utilizada pelas organizações internacionais, como as Nações Unidas, o termo continua a ser mal empregado e erroneamente utilizado na linguagem comum do dia-a-dia. Os meios de comunicação, por exemplo, freqüentemente confundem os refugiados com as pessoas que migram por razões econômicas (“imigrantes”) ou com grupos de perseguidos que se mantém dentro de seus próprios países e não cruzam nenhuma fronteira internacional (“deslocados internos”).

O “exílio” (do latim exilium banimento, degredo) é o estado de estar longe da própria casa (seja cidade ou nação) e pode ser definido como a expatriação - voluntária ou forçada de um indivíduo. Também podemos utilizar as palavras, banimento, desterro ou degredo. Alguns autores utilizam o termo exilado no sentido de refugiado.

Convenção de Genebra Relativa à Proteção de Pessoas Civis em Tempos de Guerra (1949) (artigos 44, 70)

Essa convenção protege os refugiados durante a guerra. Os refugiados não podem ser tratados como “inimigos estrangeiros”.

Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951)
Este foi o primeiro acordo internacional a cobrir os mais importantes aspectos da vida de um refugiado. Nele foi explicitado um conjunto de direitos humanos que ao menos deveriam ser equivalentes às liberdades que gozam os imigrantes que vivem legalmente em um determinado país e, em muitas ocasiões, igual às dos nacionais daquela nação. Também reconheceu a dimensão internacional da questão dos refugiados e a necessidade da cooperação internacional – incluindo as obrigações bilaterais entre os Estados – para se enfrentar o problema.

A Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados, também conhecida como Convenção de Genebra de 1951, define o que é um refugiado e estabelece os direitos dos indivíduos aos quais é concedido o direito de asilo bem como as responsabilidades das nações concedentes.

A convenção também estabelece quais as pessoas que não podem ser qualificadas como refugiados, tais como criminosos de guerra. Também garante a livre circulação para portadores de documento de viagem emitido sob a convenção.

A convenção foi aprovada por uma conferência especial das Nações Unidas, em 28 de julho de 1951. Inicialmente limitava-se a proteger refugiados europeus, após a Segunda Guerra Mundial, mas o Protocolo de 1967 removeu os limites geográficos e temporais, expandindo o escopo da Convenção.

Uma vez que a convenção foi aprovada em Genebra, é frequentemente referida como "Convenção de Genebra", embora não seja uma das Convenções de Genebra especificamente voltadas para a regulação da conduta em tempo de guerra.
Em 1967, foram removidas as restrições geográficas e temporais que havia, e esse protocolo unificou diversas resoluções a respeito.
Em Julho de 2001, foi feita uma publicação em comemoração aos 50 anos de existência da ACNUR.
Até 1° de outubro de 2002, 141 países já haviam ratificado a Convenção dos Refugiados.

Atualmente, há mais de 75 mil refugiados no Brasil, a maioria originária da África (62%), Europa Oriental, América do Sul e Oriente Médio.
[2] Luís Martins de Sousa Dantas (Rio de Janeiro, 1876 — Paris, 1954). Em 1940, com a iminência da invasão alemã no Norte da França, o governo francês se retirou para o Sul, instalando um governo colaboracionista na cidade de Vichy. Naturalmente, o corpo diplomático estrangeiro o acompanhou. Registros dessa época mostram que Souza Dantas já vinha intercedendo em favor de refugiados do nazismo desde a sua saída de Paris. É possível comprovar o envolvimento pessoal e direto do embaixador, que começou a emitir os primeiros vistos diplomáticos “irregulares” de próprio punho. A maioria desses documentos foi concedida em Vichy e beneficiava não apenas judeus, mas também homossexuais, comunistas e qualquer pessoa ameaçada pelo nazismo.
No entanto, de acordo com a legislação vigente na época, era raro um embaixador conceder pessoalmente um visto, e isto só costumava ser feito em casos excepcionais. Para um “indesejável” receber um visto – mesmo o que se encaixava nas poucas exceções preestabelecidas –, era necessário apresentar uma série de documentos, como atestados negativos de antecedentes criminais, de “não ser de conduta nociva à ordem pública”, de saúde e prova de profissão lícita, entre outros. Era muito difícil conseguir estas declarações, principalmente para os refugiados que se encontravam longe de seus países de origem. A autoridade consular brasileira que emitia o visto, por sua vez, tinha a obrigação de informar a “origem étnica” do estrangeiro.
Uma grande quantidade de pessoas que requeriam vistos era apátrida, portadoras de passaportes “Nansen” – fornecidos pela Liga das Nações para indivíduos expatriados por causa de problemas políticos. Outras não possuíam qualquer tipo de documento para viajar. Algumas provinham de países que se encontravam tecnicamente extintos naquele momento devido aos conflitos ou cujos governos não os reconheciam mais como cidadãos. A exigência de uma série de documentos e certidões dos imigrantes tinha, na realidade, a função de impedir a entrada de refugiados no Brasil.
No dia em que Souza Dantas deixou Paris rumo a Vichy, já no caminho, ao passar por cidades como Perpignan e Bordeux, começou a assinar passaportes e documentos de viagem de estrangeiros, a maioria refugiados. Não eram pessoas “especiais” ou “importantes”, mas gente comum. Ele não seguiu nenhuma regra do governo brasileiro, não exigiu taxas, transferências bancárias, declarações ou atestados, e tampouco perguntou ou informou a alguém a origem étnica dos pretendentes.
Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre meados de junho de 1940 e 12 de dezembro do mesmo ano – data em que Souza Dantas foi proibido formalmente de conceder qualquer tipo de visto. Entretanto, de acordo com depoimentos, muitos refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro de 1940. Ou seja, ele ainda concedeu alguns vistos, mesmo depois de ter sido repreendido e proibido.
Por causa da presença de soldados brasileiros na guerra, das notícias da resistência de Souza Dantas à invasão da embaixada em Vichy e de seu longo internamento na Alemanha, os jornais brasileiros passaram a tratá-lo como herói. Mas a transformação do diplomata processado pelo governo em herói não agradou ao ditador Vargas. Rapidamente, as notícias de homenagens a Souza Dantas sumiram da mídia, então controlada rigidamente pelo Estado. Enquanto durou o Estado Novo, Getulio tratou de manter o diplomata fora de evidência no Brasil. Com a queda da ditadura em 1945, o velho embaixador saiu do ostracismo graças à influência política de antigos companheiros do Itamaraty.
Já aposentado, Souza Dantas foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para chefiar a delegação brasileira na Primeira Assembléia Geral das Nações Unidas, em Londres em 1946. Souza Dantas passou seus últimos anos de vida em Paris, falecendo em 1954.Em 2003 foi proclamado Justo entre as nações, título atribuído a pessoas que arriscaram suas vidas para ajudar os judeus perseguidos pelo regimes nazista e fascista.