"Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"
Com essa frase Augusto Boal, 78 anos, terminou sua mensagem lida em português, na Unesco, em Paris, dia 25, quarta-feira, diante de um auditório repleto. Aplaudido de pé depois da cerimônia em torno do teatro do oprimido, o brasileiro foi homenageado por representantes de vários continentes. Ao escolher Boal este ano como autor da mensagem do Dia Internacional do Teatro, o Instituto Internacional do Teatro – ITI, em inglês - da Unesco o colocou num seleto grupo que inclui Jean Cocteau, autor da primeira mensagem, Lawrence Olivier, Peter Brook, Luchino Visconti e, mais recentemente, o prêmio Nobel de Literatura Wole Soyinka.
“Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo”, dizia a mensagem exibida em cartazes em 45 línguas. O texto de Boal será lido em todos os teatros do mundo antes do espetáculo, na noite do dia 27, dia internacional do teatro. Indicado para o Nobel da paz de 2008, Boal é o homem de teatro brasileiro mais conhecido, premiado e estudado internacionalmente, graças à sua maior criação, o teatro do Oprimido, praticado em mais de 70 países.
Na cerimônia, o representante do ITI, Tobias Biancone, nomeou Augusto Boal Embaixador Mundial do Teatro, honraria que divide com mais seis embaixadores : Vaclav Havel, Wole Soyinka, Anatoli Vassiliev, Ellen Stewart, Arnold Wesker, Vigdis Finnbogadottir e Girish Karnad.
Boal pensa que todo teatro é uma forma de ação política, contra ou a favor do status quo. “No nosso caso, o teatro é uma ação política consciente. Sabemos que existem opressões, que queremos combater. É uma forma de fazer política, sem ser política partidária”. Ele lamenta que a universidade brasileira considere o teatro do oprimido como eminentemente político, enquanto nos EUA várias teses foram feitas em torno desta forma de fazer teatro.
Saudado pelos oradores da noite como autor de um teatro que revolucionou a arte teatral, ajudando a solucionar problemas sociais em todos os continentes representados na cerimônia, Boal foi apresentado como um artista que viveu o teatro como um vetor de transformação social, seja na Índia, no Brasil, no Sudão ou em Israel-Palestina, onde grupos do teatro do oprimido reúnem israelenses e palestinos”.